Comemorar o quê?

23/12/2008

cristo Todo final de ano é a mesma coisa. Dezembro vem chegando e é comum vermos enfeites nas portas das casas e árvores de Natal. As ruas da cidade também se enchem com bolas coloridas e luzes de toda sorte. Na noite de Natal famílias fazem um banquete com perus, leitões recheados, patos, gansos, muitas nozes, castanhas, passas de uvas, whiskys, champanhe etc.

Mas afinal, o que se comemora no Natal? No mundo cristão pode-se dizer que é o nascimento de Jesus Cristo. Mas mesmo para a maioria dos cristãos o que isto significa não é muito fácil de entender. Pois até o Japão, que é um país budista, também comemora o Natal. Mas então, que espírito é esse que se manifesta em praticamente todas as culturas do mundo? Para responder a essas perguntas ouvimos alguns seguidores de diversas religiões. Antes, entretanto, é necessário fazer uma breve revisão histórica a respeito da data do Natal.

Culto pagão

No ano 354 d.C. o papa Libério, sendo imperador romano Justiniano, ordenou que os cristãos celebrassem o nascimento de Jesus no dia 25 de dezembro. A data coincide com as antigas comemorações romanas à Saturno, deus da agricultura, e também com o solstício de inverno no hemisfério norte. Mas segundo o kardecista do Centro Espírita Irmã Filomena e autor espírita de livros como A Voz do Coração, Demétrio Pavel Bastos, 65 anos, a Bíblia não apresenta nenhuma referência relativa à data do nascimento de Jesus Cristo. “Não é uma questão de esquecimento e muito menos de ser tratado como um fato irrelevante. Pelo contrário! Na realidade os antigos calendários romanos eram muito pouco confiáveis, e Roma, através de Júlio César, tinha recém apresentado um novo modelo que incluía o mês de julho em sua própria homenagem”, explica.

O nascimento de Cristo sempre esteve envolvido em controvérsias. Para uns seria no dia 1º de janeiro. Para outros, no dia 6 de janeiro, 25 de março ou 20 de maio. Pelas observações dos chineses o Natal seria em março quando um cometa, tal qual a estrela de Belém, reluziu na noite asiática no ano 5 d.C. “Como data festiva o Natal é um arranjo inventado pela Igreja Católica e enriquecida através dos tempos pela incorporação de hábitos e costumes de várias culturas”, afirma Bastos. Portanto, para os espíritas, o Natal não se relaciona ao nascimento físico de Jesus, mas sim ao seu nascimento espiritual. “O Natal para o espírita é o momento em que nós nos impregnaríamos da mensagem evangélica, permitindo a Jesus nascer em nossos corações, para nos tornarmos o homem novo”, finaliza.

No Centro Sete Raios de Luz, comandado por Luiz Molin, 57 anos, os umbandistas se consideram cristãos e também compreendem o Natal como uma data em lembrança a Jesus Cristo. “Oxalá é sincretizado com Jesus Cristo e no entendimento entre as raízes Africanas e o Culto no Brasil, fica claro que Jesus é o Orixá maior. Comandante espiritual das diversas linhas. Na Umbanda o respeito com ele é tão grande que não se faz maiores festas ou chamadas nesta linha”, explica Molin. Os Umbandistas consideram importante o culto a Jesus. Tanto que a imagem de Oxalá é representada como estando sobre o globo terrestre e significa Jesus pós-morte, pós-crucificação. “Em geral apreciamos o Natal como uma oportunidade de reverencia especial, onde o recolhimento dentro do terreiro, para os médiuns, é quase sem assistência de outras pessoas”, ainda explica o umbandista. Espiritualmente o Natal umbandista identifica-se com os dogmas cristãos, mas Molin deixa claro que não há nenhuma sintonia com o Noel, dos aspectos materiais e comerciais, em voga atualmente. “Mesmo que em vários terreiros se faça promoções para angariar presentes a crianças necessitadas, ainda sim esclarecemos a ligação entre o Natal e Jesus”, finaliza.

oriente Natal no oriente

O oriente também comemora o Natal. Mas diferente do mundo católico, eles festejam o nascimento do primeiro Buda, Sidharta Gautama. No budismo japonês é chamada de “Festival das Flores”. Elas simbolizam o jardim de Lumbini, local onde a rainha Maya, esposa do rei Suddhodhana, deu à luz ao menino Sidarta.

A cantora Sri Madana Muhana, 36 anos, que segue a religião Hare Krishna há 18, conta que embora a principal divindade cultuada seja Krishna, também é costume comemorar a vinda de Jesus com uma ceia e uma troca de presentes. Muhana explica que Jesus é visto como um mestre. "Ele foi um sakti avesa avatar, uma encarnação especial dotada de poder divino, que veio com a missão de pregar a humildade".

O monge José Roberto Neves, 42 anos, do Templo Budista Higashi Honganji, explica que para os budistas o Natal é um dia como os outros. E que, ao invés do Natal, eles possuem várias outras festas, incluindo a que comemora o nascimento de Buda, em abril. Para eles, Jesus é considerado "um mestre que transmitiu muitos ensinamentos, assim com Mahatma Ghandi". Mas quanto ao Natal propriamente dito, Neves acha que hoje essa questão é mais comercial. "Mesmo no Japão, que é um país budista, tem muita árvore de Natal e Papai Noel", conta.

Os sem-Natal

O cotidiano do Brasil, maior país católico do mundo, está essencialmente mesclado com as datas cristãs. Imagina-se que todo mundo comemore o Natal. Entretanto, para alguns brasileiros o Natal não tem o mesmo sentido. E, não fossem as festanças da vizinhança, as decorações das casas, lojas e as propagandas nos meios de comunicação, passaria como um dia normal. "Para nós, o Natal e o Ano Novo são dias normais. O nascimento de qualquer profeta é um dia normal", revela o diretor do Departamento Religioso da Mesquita Brasil, de São Paulo, o sheik Ali Abdouni, 36 anos. Ele explica ainda que Jesus foi um dos grandes profetas assim como Adão, Abraão e Maomé. "Se fôssemos comemorar nascimentos de profetas, teríamos uma festa por hora, pois são ao todo 124 mil profetas de acordo com o Alcorão".

ascensao A mesma data, outro acontecimento

Hanukkah significa dedicação e acontece na noite de 25 de dezembro, mas nada tem a ver com o nascimento de Jesus Cristo a quem a religião judaica não reconhece como filho de Deus. A festividade marca o resgate do Templo de Jerusalém depois da sua profanação por forças inimigas a 165 antes da Era Comum, designação que substitui a demarcação Antes de Cristo. A data, sobretudo, refere-se a dedicação constante do povo Judeu e a sua luta pela vivência em conformidade com os mandamentos de Deus que é festejada.

O Hanukkah tem a duração de oito dias. A explicação assenta na lenda judaica onde se relata que entre os destroços da batalha pela reconquista do Templo, restava apenas uma jarra de óleo sagrado que chegaria para um dia. Milagrosamente o líquido ardeu durante oito dias. Daí que o acender das velas seja o ritual mais importante associado a esta festividade. Usa-se um candelabro com nove velas, sendo que a colocada no centro é acesa todas as noites e usada para acender diariamente cada uma das restantes. Durante este período de tempo trocam-se presentes e fazem-se contribuições para os mais desfavorecidos. É, ainda, costume a ingestão de alimentos fritos em óleo como as panquecas de batata e o tradicional bolo de geléia judeu.

À procura do espírito

O Natal é cada vez mais uma festa dessacralizada. O padre responsável pela Comunidade paroquial da Igreja do Santíssimo Sacramento, José Jorge, 80 anos, comenta: “Apesar da comercialização da época, é na congregação que reside a espiritualidade. As pessoas vêm de toda a parte do mundo e reúnem-se na casa que os viu nascer e onde sempre houve Natal”, afirma padre José.

Entretanto, por entender a data 25 de dezembro como uma calendarização falsa de um acontecimento verdadeiro, Eliseu Garrido, 80 anos, ancião das Testemunhas de Jeová assume uma posição crítica sobre a celebração da data. “É falso dizer que Jesus Cristo nasceu nesse dia!”. Garrido defende a tese baseada em referências cronológicas presentes na Bíblia. “Jesus morreu aos 33 anos e meio, no fim da celebração da Páscoa judaica, se retroceder ou avançar seis meses nunca cairá no mês de dezembro”, alerta.

A visão de padre Jorge encontra uma forte oposição nas palavras do ancião Garrido: “Há um espírito de Natal, mas é o do comércio e não o da fraternidade nem o da solidariedade para com o próximo!”. O tom mantém-se. “Não estamos à espera de datas para demonstrar nada!”. Padre Jorge afirma que também não. Mas admite o clichê que insiste em usar: “O Natal é todos os dias”.

Seu moço! Eu fui garoto infeliz na minha infância que soube que fui criança, mas pela boca dos outros. Só brinquei com gafanhoto que achava no tabuleiro, debaixo do juazeiro comia as vacas de osso. Essas que atrevai seu moço, que se arranja sempre. Quando eu vi um gurizinho brincando de velocípede, de caminhão e de jipe, de bola, revólver e carrinho. Sentia dentro de mim desgosto que dava medo. Ficava chupando dedo e chorando o resto do dia só porque eu não podia pegar naqueles brinquedos. Mas perguntei uma vez ao filho de um doutor, dizendo faça um favor quem é que dá isso a você? E respondeu logo uns três: isso aqui é os presente que a gente que é inocente, vai dormir, às vezes nem nota, isso é Papai Noel que bota perto do berço da gente.

Fiquei naquilo pensando até o Natal chegar. E na noite de Natal eu fui dormir me lembrando. Acordei e fiquei caçando por onde eu tava deitado. Seu moço eu fui enganado! Que do presente que tinha, de mijo era uma poçinha que eu mesmo tinha mijado. Saí com a bexiga preta caçando os amigos meus. Quando eles mostraram pra mim caminhão, carro, carreta, bola, revólver, corneta e trem elétrico até, boneca, máquina de pé. Mas não brinquei, só fiz é ver e resolvi escrever uma carta à Papai Noel.

Papai Noel, é pecado os outros me maltratarem? Mas eu vou lhe reclamar um troço que está errado. Que os filhos dos deputados você dá tanto carrinho, mas você é muito ruim que lá em casa não vai. Por certo não é meu pai e nem se lembra de mim. Já estou certo que você só balança o povo seu. Um pobre que nem eu, você vê faz que nem vê. E se você vê porque na minha casa não vem? O rancho que a gente tem é pequeno, mas lhe cabe. Será que você não sabe que pobre é gente também? Você de roupa encarnada, colorida, bonitinha, nunca reparou que a minha já está toda remendada. Seja mais meu camarada para eu não chamá-lo de ruim. Para o ano que vem faça assim: dê menos aos filhos dos ricos, de cada um tire um tico e traga um presente pra mim.

Meu endereço eu vou dar, da casa que eu moro nela. Resido numa favela que você nunca foi lá, mas quando você chegar, que avistar uma palhoça coberta com lona grossa e dois buracão bem grande e uma porta velha. Pode bater que é a nossa!

Em tempo!

O texto acima é do letrista, cordelista, violeiro e poeta, Luiz Campos. Figura reconhecida entre intelectuais e artistas de Mossoró. É um registro de sua mocidade numa de suas cirandas de cordel mais famosas, “Carta à Papai Noel”, editada pela coleção Queima-Bucha. Tive a oportunidade de conhecer o trabalho dele em setembro deste ano, quando fui à Natal/RN participar do Intercom Nacional.

O vídeo entubado é uma produção minha de pesquisa do idioleto. O texto é do Cordel do Fogo Encantado, do poeta Zé da Luz, se não estou enganado. A proposta era simples e puramente dar o texto “Jesus no Xadrez”, que originalmente possui uma outra linguística e regionalidade, na boca dos gaúchos que recitam de primeira, sem ensaio e sem repetecos! Fica o registro desse experimento interessante sobre o idioleto e a minha paixão expressa pela Literatura de Cordel.