A paixão viva

06/10/2009

LOU ANDREAS -SALOMÉ: A PAIXÃO VIVA

(Do Livro: Os Sentidos da Paixão. Ed. Cia de Letras, 1987, págs. 359-373)

Luzilá Gonçalves Ferreira

Lou Salomé: uma prática de paixão; alguém que viveu a paixão com paixão, e talvez por isso mesmo provocou, até uma idade avançada, o nascimento da paixão nos seres que encontrou em seu caminho: Rilke, Nietzsche, Paul Rée, Tausk e, ao que parece, até mesmo Wagner sucumbiram ao seu encanto e à alegria de viver que transpirava em cada um de seus gestos – e o próprio Freud não parece ter sido indiferente à graça da discípula que ele qualificou de "raio de sol’.

A paixão de Lou pela vida transparecia em seu próprio físico. Freud lhe escreveu um dia: "você tem um olhar como se fosse Natal". E a escritora Helena Klinkberg (citado por Peters): "O sol se levantava quando Lou entrava numa sala". Era um ser luminoso, transparente e lúcido, daquela lucidez talvez de que fala João Cabral de Melo Neto a respeito de Monsieur Teste: "uma lucidez que tudo via, como se à luz ou de dia". Um ser humano para quem a felicidade é condição natural e destino do homem: "dentro da felicidade eu estou em casa". E ainda: "A única perfeição é a alegria".

Essa paixão pela vida, ela a transmitia aos outros, fazendo com que as pessoas ao seu contato desenvolvessem e dessem o melhor delas próprias. O que fez alguém escrever: "Quando Lou se interessa apaixonadamente por um homem, nove meses depois este homem dá à luz um livro. Um interesse pelo outro que o leva a crescer e produzir – mesmo quando esse crescimento e essa produção implicam o sofrimento.

Pois Lou Andreas-Salomé conseguiu realizar, em seus 76 anos de vida, o que nós todos gostaríamos e deveríamos fazer sempre – e não o fazemos por descaso, indolência, medo: tornar a vida o exercício apaixonada de uma busca. Sua exploração em todos os possíveis. Isto que requer a fruição intensa e incessante de coisas e pessoas que nos cercam, de modo que o mundo exterior em nós penetre e a nós se incorpore. Pois a vida, como o dizia Rainer Maria Rilke a propósito de Rodin, "está nas pequenas coisas como nas grandes: no que é apenas visível e no que é imenso".

Antes mesmo do seu encontro com Rilke, Louise von Salomé já intuía essa verdade: desde muito cedo encontramos nela um grande apetite de aprender e de amar – e o objeto de sua atenção podia ser a psicanálise, a curtição de uma paisagem, de uma flor, de um esquilo na floresta ou de um corpo amado.

(…..) Lou escreveu vários ensaios sobre o Erotismo. O primeiro deles data de sua ligação com Rilke. Intitulado reflexões sobre o problema do amor, traz as evidentes marcas da embriaguez física e espiritual que sua autora estava vivendo. Aqui ela assinala, em páginas de um admirável lirismo, a capacidade que tem a paixão amorosa de nos abrir o caminho ao sentimento da totalidade da vida e sua faculdade de nos colocar em estado criativo. O ato amoroso "nos enche a alma inteira (…) de ilusões e de idealizações espirituais, forçando-nos o mesmo tempo a nos chocar brutalmente, sem possibilidade de se esquivar, ao dispensador de uma tal desordem; ao corpo". E Lou escreve:

"Pois, sobretudo, resulta no indivíduo uma espécie de interação ébria e exuberante das mais altas energias criadoras do seu corpo e a exaltação mais alta da alma. Enquanto nossa consciência se interessa vagamente, habitualmente, por nossa vida psíquica, como por um mundo que conhecemos mal e que controlamos ainda pior, que ao que parece forma um com ela, mas com o qual normalmente ela se entende mal – eis que se produz subitamente entre eles uma tal comunhão de enervação que todos os seus desejos, todas as suas aspirações se inflamam ao mesmo tempo."

Por essa exaltação da alma através dos sentidos, por essa impressão que o ato amoroso nos dá de haver ido muito longe, e tocado o indizível, é que ele pode influenciar e favorecer a criação, a "pátria do dizível", como escreveu Rilke. E Lou: "O Mundo da criação e do amor significa: volta ao país natal, entrada no paraíso; o a impossibilidade de criar, ou do amor morto, é, ao contrário, um exílio onde os deuses nos abandonam".

A atividade criadora se apaixona por tudo aquilo que é vida em nós, que é indício do que em nós lateja de mais secreto, e que atinge as raízes do ser. O espírito descobre forças que não possuía ou das quais não se apercebia. Pode voltar àquele estado de inocência primeira que possuiu na infância, redescobre a "novidade" das coisas, com o frescor de uma sensação primitiva: o olhar da criança sobre o mundo que descobre maravilhada; o olhar de Adão diante de Eva recém-saída de si.

Confrontado com os seus longes, o amado vê a si mesmo, e ao mundo exterior, como algo recém-criado. Por isso, às vezes a gente sai do amor como quem saiu de uma catedral, redescobrindo o mundo aqui fora com os olhos renovados. O ato amoroso, vivido em plenitude, obriga os amantes a concentrar em si mesmos tudo aquilo de que são capazes, passível de germinar com a força das plantas na primavera.

"Nesta igualdade original do corpo e do espírito e nesta consciência ingênua de um e de outro – uma criança que acredita em tudo que vê, para quem tudo se renovou, que, cheio de uma fé e de uma confiança sem limites, gostaria de gritar sua alegria ao esplendor inverossímil do mundo, e não saberia saudar de melhor modo a razão senão fazendo cabriolas diante dela… como se balbuciasse em sonho, ele tem algo a dizer sobre estes esplendores ocultos que lhe fizera, ai de nós, esquecer tantas coisas úteis e necessárias."

O ato amoroso transforma o parceiro num "conto estranho e maravilhoso". A Paixão amorosa é uma porta, diferente de todas as outras portas, "em sua arquitetura ornada de elementos ricos de sentido, em virtude de um simbolismo singular". É o caminho por excelência que nos leva a nós mesmos. Por ela "nós não somos um mundo de realidade, somos apenas o espaço e o metteur en scène de um mundo onírico, todo-poderoso, irresistível".

Assim, o amor durará enquanto os amantes forem capazes de oferecer ao outro essa entrega, que dá acesso de modo vital à capacidade de se concentrar neles mesmos, de ser um mundo para si por causa do outro.

A esta altura, a gente poderia se perguntar – não seria esta uma visão demasiado idealizada do amor? Mas Lou não se deixa embalar incondicionalmente pelo êxtase da paixão: esta grande amorosa foi também, segundo a expressão de Freud, uma "compreendedora".

Neste mesmo ensaio, ela nos lembra que no êxtase amoroso, por mais que desejemos nossa fusão com o amado, sempre somos, em última análise, remetidos a nós mesmos. A reconciliação que se fará aqui será sobretudo entre o sujeito e ele próprio, através do outro, mais do que entre o sujeito e o objeto amado.

Num ensaio sobre o erotismo, datado de 1910, e num ensaio posterior, quando Lou já se engajara definitivamente à psicanálise, intitulado Anal e Sexual, ela nos lembra que na união física "a gente não possui um ao outro por meio do corpo, mas apesar do corpo, que, como todo mundo sabe, não se identifica jamais (…) completamente com o todo da pessoa, mas aparece sempre como uma parte dela e resiste à dominação mais viva".

(….) A fusão inteira do nosso ser com o outro, por mais querido que seja, não seria desejável. É preciso que sejamos cada vez mais nós mesmos, para poder ser um mundo para o outro. A relação erótica, remetendo-nos a nós próprios, é uma ocasião de constante renovação: cada vez ela inaugura em nós um ser novo; como um ato de linguagem, cada vez que eu falo a um Tu, é um Eu diferente que fala a um novo Tu: quando digo Eu, já não sou aquela que falava há pouco. A relação erótica é, assim, nela mesma, criação. E o amor um elemento de produção: somos a cada instante outros, encontramos no outro cada vez um elemento novo, diferente, desconhecido, misterioso até – o que dá à relação erótica sua riqueza:

"só aquele que permanece inteiramente ele próprio pode, com o tempo, permanecer objeto do amor, porque só ele é capaz de simbolizar para o outro a vida, ser sentido como tal. Assim, nada há de mais inepto em amor do que se adaptar um ao outro, de se polir um contra o outro, e todo esse sistema interminável de concessões mútuas… e, quanto mais os seres chegam ao extremo do refinamento, tanto mais é funesto de se enxertar um sobre o outro, em nome do amor, de se transformar um em parasita do outro, quando cada um deles deve se enraizar robustamente em um solo particular, a fim de se tornar todo um mundo para o outro."

É preciso que a gente seja sempre, um para o outro, duas deliciosas surpresas fecundas. Aquele mundo da fábula de La Fontaine "Os dois pombos", que aconselha aos amantes: "Amantes, felizes amantes, vocês querem viajar? Que seja pelas margens próximas/Sejam um para o outro um mundo sempre belo, sempre diverso, sempre novo./ Sejam um todo um para o outro, contem por nada o resto".

E Lou analisa esta necessidade de renovação e da existência do mistério na relação amorosa:

"Pois, nos seio mesmo da paixão, nunca se deve tratar de "conhecer perfeitamente o outro": por mais que progridam neste conhecimento, a paixão restabelece constantemente entre os dois este contato fecundo que não pode se comparar a nenhuma relação de simpatia e os coloca de novo em sua relação original: a violência do espanto que cada um deles produz sobre o outro e que põe limites a toda tentativa de apreender objetivamente este parceiro. É terrível de dizer, mas , no fundo, o amante não está querendo saber "quem é" em realidade seu parceiro. Estouvado em seu egoísmo, ele se contenta de saber que o outro lhe faz um bem incompreensível… os amantes permanecem um para o outro, em última análise, um mistério."

Assim, o amor não seria um encontro, mas uma busca. Não quer dizer que chegamos, mas que estamos próximos.

Rilke perguntava-se na Primeira elegia de Duíno: "Não é tempo daqueles que amam libertar-se do objeto amado e superá-los, frementes? Assim a flecha ultrapassa a corda, para ser no vôo mais do que ela mesma". E nas cartas a um jovem poeta, em maio de 1904:

"Assim, para quem ama, o amor, por muito tempo e pela vida afora, é solidão, isolamento, cada vez mais intenso e profundo. O amor, antes de tudo, não é o que se chama entregar-se, confundir-se, unir-se a outra pessoa. (…) O amor é uma ocasião sublime para o indivíduo amadurecer, tornar-se algo por si mesmo, tornar-se um mundo para si, por causa de um outro ser: é uma grande e ilimitada exigência que se lhe faz, uma escolha e um chamado para longe."

Se o amor é uma busca, se o estudo é uma busca, a arte uma busca, a vida inteira é também busca. E o amor e a paixão são a mola dessa busca.

É preciso buscar com amor, com paixão. Amar a vida, amá-la mesmo e sobretudo quando ela chega ao fim, e o espírito e o corpo vêem limitados seu campo de ação. Nos Cadernos íntimos dos últimos anos, Lou Andreas-Salomé dá um balanço de sua vida. Em fevereiro de 1934, isto é, três anos antes de morrer, ela escreve:

"Distingue-se entre os humanos aqueles que se sentem divididos em um passado e um futuro e aqueles que vivem o presente com cada vez mais densidade, sempre mais plenitude. Os orientais acham natural insistir menos sobre a morte do que se passa do que sobre a perfeição do que se acaba, como aprofundamento da realidade. Nós, ao contrário, começamos a ver aquilo que nos chega, apenas sob o aspecto sempre mais sinistro da morte – como tudo o que se observa de um olhar exterior, logo mortífero."

E um pouco mais adiante:

"Sempre não tive a idéia fixa de que a velhice me traria muito? Em meus jovens anos escrevi em algum lugar: primeiro nós vivemos nossa juventude, em seguida nossa juventude vive em nós. Não sei bem, ainda hoje, o que eu queria dizer com isso outrora. Mas eu tinha realmente medo de não atingir a idade de viver esta experiência; eu o sabia profundamente, uma longa vida, com todas as suas dores, vale ser vivida,. Claro, o valor da vida pode nos ficar escondido pelos desgastes sofridos pela nossa carne, nosso espírito (…) do mesmo modo que a juventude mais empreendedora pode se ver entravada em sua felicidade e em seu sucesso, por um fatal concurso de circunstâncias; mas, por além das perdas, a velhice adquire muito mais que a famosa aptidão à serenidade e à lucidez: ela permite que se chegue a uma plenitude mais acabada."

A velhice pode ser, assim, uma volta àquela espécie de paz inicial e retorno do indivíduo a um estado de não-divisão, de fusão primitiva do eu para consigo mesmo, o corpo parece se acalmar relativizando-se; …

Num ensaio de 1901, escrito aos 40 anos e intitulado A velhice e a eternidade, Lou afirmava: "O velho está liberto de todos os seus limites pessoais e escrúpulos mesquinhos. Retirado lentamente da vizinhança imediata dos outros seres vivos, ele se vê, progressivamente, reintroduzido no grande encadeamento universal".

É preciso amar a vida em todas as suas fases e amar até mesmo a morte. Aqui Eros e Thanatos se dão as mãos – são forças complementares e não contrárias. A morte é a redenção da vida individual, escreve Lou num artigo sobre o misticismo russo. Nossa morte não nos separa dos seres que amamos; ela nos entrega de modo mais completo a eles:

No dia em que eu estiver no meu leito de morte

Faísca que se apagou -,

Acaricia ainda uma vez meus cabelos

Com tua mão bem-amada

Antes que devolvam à terra

O que deve voltar à terra,

Pousa sobre minha boca que amaste

Ainda um beijo.

Mas não esqueças: no esquife estrangeiro

Eu só repouso em aparência

Porque em ti minha vida se refugiou

E agora sou toda tua [Hino à morte]

A morte desfaz, assim, a distância entre os amantes, que agora vivem um no outro, sem que o individualismo os separe. A morte não é uma partida, umas uma volta: um retorno do indivíduo àquela união primitiva com as cosias. Por isso não a devemos temer.

A grande biografia de Lou Salomé ainda não foi escrita. Mas, pelo que dela nos resta, fica uma lição final de amor pela vida, de paixão pela vida, de totalização da vida. Por isso Lou desejou ser cremada e que suas cinzas fossem jogadas no jardim de sua casa, em Gottingen: para que seu corpo pudesse se incorporar à terra e ser transformado em planta e flor.

Os pontos

19/09/2009

 

nos pontos… reticências
de ponto em ponto… busco
nesse ponto… um fim

no ponto encontro
o fim do conto
enfim, um ponto

encontro desencontros
pontos sem fim
adormecem serafins

reencontro esquecido
lembrança revivida
não vivo mais em mim

não encontro
um ponto sequer
que não seja alguém

sou o que lembram
nos pontos retidos
das vírgulas sonhadas

são tantos pontos
que só existo fora
em quem recorda

as tragédias
dos senhores da guerra
sobreviventes!

nos pontos… habito
de ponto em ponto… encontro
nesse ponto… paz

As vírgulas

19/09/2009

Em postagem de quase dois meses havia publicado um vídeo sem comentários. Naquele momento não sabia o por que? Hoje descobri! “Não me leve ao pé da letra, essa história não tem pé nem cabeça”.

quando eu fui morar numa vírgula
tinha um mundo de cada lado
o mundo onde o sol nascia, sorria, sorria
o mundo do por do sol, dormia de olhos fechados

se eu fosse um pontinho
e soubesse acabar
levava meus sonhos
pro mundo de lá

se esse mundo, se esse mundo fosse meu
eu mandava eu mandava ele parar
tá rodando tanto tanto e tão depressa
que ninguém consegue mais se equilibrar

eu vi o menino sorrindo
com uma joaninha na mão
e homens matando outros homens,
pedaços de gente no chão

um dia um sorriso me disse
para que eu olhasse o luar
bem longe uma luz acendia
cantando canções de ninar…

(pequena dulce)

Polaroides

13/09/2009

Vou te aprisionar nessa canção até
que o som dela inunde teu coração!

Vou lembrar você

08/09/2009

O dia é propício para falar sobre sentimentos. A umidade preenche a atmosfera até dar a liga suficiente para que algumas memórias vertam de mim. Nessa água miúda e renitente é difícil não ficar introspectivo. Com alguma sorte podemos até ver alguns peixes nadando por aí.

Acontece que há pouco, indo para a lida diária, tocou na rádio a música ‘Pra rua me levar’. Ela me pegou de jeito já na primeira frase: ‘Não vou viver como alguém que só espera um novo amor’. Eu entendi o contrário! E foi seguindo o bombardeio com precisão cirúrgica em meu campo emocional: ‘As vezes ando só, trocando passos com a solidão’.

Estou só! Percebo que escolhi isso mesmo havendo pessoas que a sua maneira, medida e tempo, tenham dado o melhor de si para mim: Luciana, Rosa, Andréia, Andrea, Simone, Aline, Carol, Carla. E outras que não lembro o nome, mas de alguma forma ficaram retidas. Há ainda outras em que amei desesperadamente por um verão ou dois: Vanisse, Pérsia.

Lembro com carinho de todas. Algumas ainda fazem parte do meu presente ausente e me ensinam a ‘olhar o rio por onde a vida passa’, a escutar o silêncio que há em mim. Um dia cumpro a promessa que fiz e ainda não cumpri: viver como alguém que só espera um novo amor. Mesmo que esse amor seja sempre com a mesma pessoa.

Pra Rua Me Levar

Composição: Ana Carolina / Totonho Villeroy

Não vou viver como alguém que só espera um novo amor
Há outras coisas no caminho aonde eu vou
As vezes ando só, trocando passos com a solidão
Momentos que são meus e que não abro mão

Já sei olhar o rio por onde a vida passa
Sem me precipitar e nem perder a hora
Escuto no silêncio que há em mim e basta
Outro tempo começou pra mim agora

Vou deixar a rua me levar
Ver a cidade se acender
A lua vai banhar esse lugar
E eu vou lembrar você

É… mas tenho ainda muita coisa pra arrumar
Promessas que me fiz e que ainda não cumpri
Palavras me aguardam o tempo exato pra falar
Coisas minhas, talvez você nem queira ouvir

Já sei olhar o rio por onde a vida passa
Sem me precipitar e nem perder a hora
Escuto no silêncio que há em mim e basta
Outro tempo começou pra mim agora

Vou deixar a rua me levar
Ver a cidade se acender
A lua vai banhar esse lugar
E eu vou lembrar você…

Relicário

28/06/2009

Apenas o vídeo por enquanto, logo mais coloco o texto. Sem tempo agora, vou viver um pouco lá pras bandas do rio! Fui…

Às vezes, a gente precisa perdoar para partir livre. Sem pesos e amarras tenta-se experiências novas. Instigantes? Diferentes! Outras vezes, a gente  perdoa para poder ficar. Também livre, sem amarras, leve. Naquele eterno exercício de dar em vez de receber.

Sabe que ultimamente tenho escutado Krishna Das. Significa algo próximo a Servo do Amor. Isso acontece geralmente quando estou em depressão. Parece ser a única coisa que me tira desse estado. A última vez que fiz isso foi quando desfiz um casamento de nove anos com a Simone. Ouvia Krishna Das e chorava, foi a única forma de superar, naquele instante, a culpa inevitável. Não tenho mais culpa. Hoje ela está bem, voltou a trabalhar e, ao que tudo indica, feliz! Também não pago mais pensão. O que é um alívio. Tudo bem quando acaba bem. Ainda mais quando ficamos amigos sinceros, sinal de que esse karma foi transformado em darma.

E sabe que nunca tive problema em ser fiel. Desde que a regra fosse igual para ambos. Gosto de justiça e sou cartesiano no seu cumprimento. Pesos e medidas igualitárias para ambos. Viva a democracia do amor! Mas veja bem, todo mundo tem o direito ou liberdade de dar uma escapudela, escorregão, tropeço, aventura… tentativa sincera. Todo mundo tem! Eu tive. Como também tem a liberdade ou direito de se apaixonar novamente. Eu tenho. O melhor disso é não ter que dar explicações para ninguém sem racionalizar algo para nada. O conselho é: quem tiver condições e coragem de viver isso que viva.

Assim como o tal do livre-arbítrio também permite que as pessoas vivam sempre de galho em galho. De tentativa em tentativa. Parece ser um estilo cool isso, né? E realmente não vejo problema quando esse life style leva a pessoa, em algum momento de sua vida, a olhar para dentro de si. Descobrir o que realmente importa para si, para as pessoas que estão a sua volta e a perceber o quanto são transitórias as cenas capturadas em nossa retina. Registro indelével. Tudo passa e se não passou é porque ainda não se cumpriu. Ainda vive em vias de ser. Ou porque é ilusão e o que a gente gosta mesmo, é viver iludido.

Cada passo que dei, consciente ou inconsciente, cada joelho sob a terra, cada sorriso, a brisa no rosto, o trago, o afago, o cheiro, o beijo, o sono mal dormido, a primavera incompleta. O queijo mofado, o morango azedinho, a fumaça, a saliva, a sopa e a mosca. O arrependimento, a alegria, alegria, alegria de viver, de se deixar morrer um pouco a cada instante, a cada gozo, de não gozar mas ser gozado, de mergulhar, de correr ao mato, ficar nú, de rir e sentir dor no peito… são fragmentos que guardo em oração em algum lugar dentro de mim. Estão lá, cenas transitórias de alguma paz e alegria. Lembranças que escorregam de mim já no segundo copo de vinho.

Saudades de tudo isso? Claro que sim! Quero viver com fúria e inocência ao lado dessa menina. Quero me apaixonar novamente por mim. Descobrir tudo de novo, com a mesma terna e sincera Caia. Não duvide disso. A vida evolui e a cada esquina é hora de mudar. Chuta essa que é macumba!

“Eu vou seguir por essa estrada

Nessa casa chegarei

Essa é a casa da verdade

Que neste mundo, que neste mundo,

que neste mundo eu encontrei”

Porque tudo nessa vida é descartável: amizade, amor, desejo ou paixão. Apenas produtos a serem consumidos e jogados fora. Está na hora de reciclar!

Composição: Adriana Calcanhotto

Não vá pensando que determinou
Sobre o que só o amor pode saber
Só porque disse que não me quer
Não quer dizer que não vá querer
Pois tudo o que se sabe do amor
É que ele gosta muito de mudar
E pode aparecer onde ninguém ousaria supor

Só porque disse que de mim não pode gostar
Não quer dizer que não tenha do que duvidar
Pensando bem, pode mesmo
Chegar a se arrepender
E pode ser então que seja tarde demais
Vai saber?

Não vá pensando que determinou
Sobre o que só o amor pode saber
Só porque disse que não me quer
Não quer dizer que não vá querer
Pois tudo o que se sabe do amor
É que ele gosta muito de se dar
E pode aparecer onde ninguém ousaria se pôr

Só porque disse que de mim não pode gostar
Não quer dizer que não tenha o que considerar
Pensando bem, pode mesmo
Chegar a se arrepender
E pode ser então que seja tarde demais
Vai saber?
Vai saber?
Vai saber?

Não vá pensando que determinou
Sobre o que só o amor pode saber
Só porque disse que não me quer
Não quer dizer que não vá querer
Pois tudo o que se sabe do amor
É que ele gosta muito de jogar
E pode aparecer onde ninguém ousaria supor

Só porque disse que de mim não pode gostar
Não quer dizer que não venha a reconsiderar
Pensando bem, pode mesmo
Chegar a se arrepender
E pode ser então que seja tarde demais…

Não fica parado vendo a vida passar. Movimente-se!