Soprando no vento

16/09/2009

Nas vésperas do natal. Se é que essa data significava alguma coisa para aquele judeu, sua mãe pergunta.
- Robert, você está bem? Estamos preocupados com você…

Sofrendo de uma lucidez crônica, Robert responde natural, seco e sarcástico.
- Sim mamãe, estou bem, muito bem. Estou apenas suando sangue!

E a resposta sempre está no vento! O mesmo vento que traz e leva, que sopra carícias e fala a língua dos mortos, palavras antigas e impronunciáveis. Vou pedir ao vento que traga notícias de ti pequena Dulce.

Soprando no vento

Bob Dylan

Quantas estradas precisará um homem andar
Antes que possam chamá-lo de um homem?
Sim e quantos mares precisará uma pomba branca sobrevoar
Antes que ela possa dormir na praia?
Sim e quantas vezes precisará balas de canhão voar
Até serem para sempre abandonadas?
A resposta meu amigo está soprando no vento
A resposta está soprando no vento

Quantas vezes precisará um homem olhar para cima
Até poder ver o céu?
Sim e quantos ouvidos precisará um homem ter
Até que ele possa ouvir o povo chorar?
Sim e quantas mortes custará até que ele saiba
Que gente demais já morreu?
A resposta meu amigo está soprando no vento
A resposta está soprando no vento

Quantos anos pode existir uma montanha
Antes que ela seja lavada pelo mar?
Sim e quantos anos podem algumas pessoas existir
Até que sejam permitidas a serem livres?
Sim e quantas vezes pode um homem virar sua cabeça
E fingir que ele simplesmente não ve?
A resposta meu amigo está soprando no vento
A resposta está soprando no vento

One Response to “Soprando no vento”

  1. tania Says:

    Bob Dylan tomou seu nome emprestado de um poeta ingles Dylan Marlais Thomas, do início do século XX. Sua poesia falava de uma tormenta de espírito e buscava caminhos para compreender os fios de dor e sonho que tecem a vida humana.

    A LUZ IRROMPE ONDE NENHUM SOL BRILHA
    Dylan Thomas

    A luz irrompe onde nenhum sol brilha;
    onde não se agita qualquer mar, as águas do coração
    impelem as suas marés;
    e, destruídos fantasmas com o fulgor dos vermes nos cabelos,
    os objetos da luz
    atravessam a carne onde nenhuma carne reveste os ossos.

    Nas coxas, uma candeia
    aquece as sementes da juventude e queima as da velhice;
    onde não vibra qualquer semente,
    arredonda-se com o seu esplendor e junto das estrelas
    o fruto do homem;
    onde a cera já não existe, apenas vemos o pavio de uma candeia.

    A manhã irrompe atrás dos olhos;
    e da cabeça aos pés desliza tempestuoso o sangue
    como se fosse um mar;
    sem ter defesa ou proteção, as nascentes do céu
    ultrapassam os seus limites
    ao pressagiar num sorriso o óleo das lágrimas.

    A noite, como uma lua de asfalto,
    cerca na sua órbita os limites dos mundos;
    o dia brilha nos ossos;
    onde não existe o frio, vem a tempestade desoladora abrir
    as vestes do inverno;
    a teia da primavera desprende-se nas pálpebras.

    A luz irrompe em lugares estranhos,
    nos espinhos do pensamento onde o seu aroma paira sob a chuva;
    quando a lógica morre,
    o segredo da terra cresce em cada olhar
    e o sangue precipita-se no sol;
    sobre os campos mais desolados, detém-se o amanhecer.

    ( tradução: Fernando Guimarães)

    bjo Karaí


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