Seu moço! Eu fui garoto infeliz na minha infância que soube que fui criança, mas pela boca dos outros. Só brinquei com gafanhoto que achava no tabuleiro, debaixo do juazeiro comia as vacas de osso. Essas que atrevai seu moço, que se arranja sempre. Quando eu vi um gurizinho brincando de velocípede, de caminhão e de jipe, de bola, revólver e carrinho. Sentia dentro de mim desgosto que dava medo. Ficava chupando dedo e chorando o resto do dia só porque eu não podia pegar naqueles brinquedos. Mas perguntei uma vez ao filho de um doutor, dizendo faça um favor quem é que dá isso a você? E respondeu logo uns três: isso aqui é os presente que a gente que é inocente, vai dormir, às vezes nem nota, isso é Papai Noel que bota perto do berço da gente.

Fiquei naquilo pensando até o Natal chegar. E na noite de Natal eu fui dormir me lembrando. Acordei e fiquei caçando por onde eu tava deitado. Seu moço eu fui enganado! Que do presente que tinha, de mijo era uma poçinha que eu mesmo tinha mijado. Saí com a bexiga preta caçando os amigos meus. Quando eles mostraram pra mim caminhão, carro, carreta, bola, revólver, corneta e trem elétrico até, boneca, máquina de pé. Mas não brinquei, só fiz é ver e resolvi escrever uma carta à Papai Noel.

Papai Noel, é pecado os outros me maltratarem? Mas eu vou lhe reclamar um troço que está errado. Que os filhos dos deputados você dá tanto carrinho, mas você é muito ruim que lá em casa não vai. Por certo não é meu pai e nem se lembra de mim. Já estou certo que você só balança o povo seu. Um pobre que nem eu, você vê faz que nem vê. E se você vê porque na minha casa não vem? O rancho que a gente tem é pequeno, mas lhe cabe. Será que você não sabe que pobre é gente também? Você de roupa encarnada, colorida, bonitinha, nunca reparou que a minha já está toda remendada. Seja mais meu camarada para eu não chamá-lo de ruim. Para o ano que vem faça assim: dê menos aos filhos dos ricos, de cada um tire um tico e traga um presente pra mim.

Meu endereço eu vou dar, da casa que eu moro nela. Resido numa favela que você nunca foi lá, mas quando você chegar, que avistar uma palhoça coberta com lona grossa e dois buracão bem grande e uma porta velha. Pode bater que é a nossa!

Em tempo!

O texto acima é do letrista, cordelista, violeiro e poeta, Luiz Campos. Figura reconhecida entre intelectuais e artistas de Mossoró. É um registro de sua mocidade numa de suas cirandas de cordel mais famosas, “Carta à Papai Noel”, editada pela coleção Queima-Bucha. Tive a oportunidade de conhecer o trabalho dele em setembro deste ano, quando fui à Natal/RN participar do Intercom Nacional.

O vídeo entubado é uma produção minha de pesquisa do idioleto. O texto é do Cordel do Fogo Encantado, do poeta Zé da Luz, se não estou enganado. A proposta era simples e puramente dar o texto “Jesus no Xadrez”, que originalmente possui uma outra linguística e regionalidade, na boca dos gaúchos que recitam de primeira, sem ensaio e sem repetecos! Fica o registro desse experimento interessante sobre o idioleto e a minha paixão expressa pela Literatura de Cordel.

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